18 fev 2016

Respostas médicas às perguntas sobre o Zika Vírus

Por Dra. Maria Fernanda Giacomin

Vivemos certamente em um momento de muita angústia e incerteza. Estamos todos nós diante de dúvidas frente a uma emergência de saúde pública de importância internacional chamado Zika vírus. Alguns questionamentos a respeito do comportamento do vírus e sua repercussão ainda estão sendo apurados. Seguem abaixo algumas informações gerais sobre o vírus, formas de prevenção e sua relação com a microcefalia.

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O que é Zika Vírus?

O Zika é um vírus transmitido pelo Aedes aegypti e identificado pela primeira vez no Brasil em abril de 2015. O vírus Zika recebeu a mesma denominação do local de origem de sua identificação em 1947, após detecção em macacos para monitoramento da febre amarela, na floresta Zika, em Uganda.

Quais os sintomas?

Cerca de 80% das pessoas infectadas pelo vírus Zika não desenvolvem sintomas. Os principais são dor de cabeça, febre baixa, dores leves nas articulações, manchas vermelhas na pele, coceira e vermelhidão nos olhos. Os sintomas menos frequentes são inchaço no corpo, dor de garganta, tosse e vômitos. No geral, a evolução da doença é benigna e os sintomas desaparecem espontaneamente após 3 a 7 dias. No entanto, a dor nas articulações pode persistir por aproximadamente um mês. Formas graves e atípicas são raras, mas quando ocorrem podem, excepcionalmente, evoluir para óbito, como identificado no mês de novembro de 2015, pela primeira vez na história.

Como é transmitido?

O principal modo de transmissão descrito do vírus é pela picada do Aedes aegypti. O mosquito pica uma pessoa infectada e quando pica outra pessoa transmite o vírus. Outras possíveis formas de transmissão do vírus Zika precisam ser avaliadas com mais profundidade, com base em estudos científicos. Não há evidências de transmissão do vírus Zika por meio do leite materno, urina, saliva e sêmen.

Qual o tratamento?

Não existe tratamento específico para a infecção pelo vírus Zika. Também não há vacina contra o vírus. O tratamento recomendado para os casos sintomáticos é baseado em analgésicos (dipirona e paracetamol) para o controle dos sintomas de febre e dor

Quem foi infectado pelo vírus uma vez pode ter de novo?

Outros vírus parecidos com o Zika geram imunidade para a vida inteira. Quem já teve dengue pelo vírus 1, por exemplo, não voltará a ter pelo mesmo vírus. O mesmo acontece com a febre amarela. Porém, ainda não há estudos suficientes para afirmar isso em relação ao vírus Zika.

Como prevenir?

O melhor método de prevenção é o uso de repelente industrial, mas nem ele é 100% eficaz. Repelentes naturais tem ação por tempo curto, por isso são mais limitados. O Combate a criadouros do mosquito contribui para a erradicação do transmissor do vírus A orientação de todos os médicos sempre é de evitar possíveis focos de criação do mosquito.

Algumas outras medidas complementares podem auxiliar na proteção contra a picada do mosquito Aedes, a seguir:

  • Telas de proteção nas janelas e portas e mantê-las vedadas nos horários de maior risco (manhã e final da tarde)
  • Calças e blusas de manga longa, e usar repelentes nas áreas expostas,
  • Mosquiteiros, sobretudo para bebês, porém apenas naquele local especificamente,
  • Repelente de tomada podem ajudar, porém durante um período curto de tempo.

Existe algum teste para detecção do vírus?

Por enquanto, o que está disponível na rede pública e privada é o teste molecular. O método consiste em amplificar o material genético do vírus para que seja possível identificá-lo quimicamente. É capaz de detectar a presença do vírus em um período muito curto de tempo: só até cinco dias depois do aparecimento dos sintomas, ou seja, é possível que o paciente ainda esteja manifestando sintomas da doença e o vírus não seja mais detectado em seu sangue. As instituições buscam desenvolver é um teste sorológico, capaz de detectar os anticorpos contra o vírus. Esse teste seria capaz de detectar a infecção por Zika em uma janela maior de tempo, porém no momento apenas para aplicação em projetos de pesquisa. O teste rápido que faz diagnóstico de Zika em até 6 horas, será em breve disponibilizado nas redes públicas, podendo fazer diagnóstico da infecção atual da doença.

Zika Vírus e Microcefalia

O que é microcefalia?

Microcefalia é uma malformação congênita, em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada. Neste caso, os bebês nascem com perímetro cefálico (PC) menor que o normal, ou seja, igual ou inferior a 32 cm. Essa malformação congênita pode ser efeito de uma série de fatores de diferentes origens, como substâncias químicas e agentes biológicos (infecciosos), como bactérias, vírus e radiação.

A microcefalia pode levar a óbito ou deixar sequelas?

Cerca de 90% das microcefalias estão associadas com retardo mental, exceto nas de origem familiar, que podem ter o desenvolvimento cognitivo normal. O tipo e o nível de gravidade da sequela vão variar caso a caso. Tratamentos realizados desde os primeiros anos melhoram o desenvolvimento e a qualidade de vida.

Há confirmação da relação de microcefalia e infecção pelo Zika vírus no Brasil?

O Ministério da Saúde confirmou a relação entre o vírus Zika e a microcefalia através do resultado de exames realizados em um bebê, nascida no Ceará, com microcefalia e outras malformações congênitas, onde foi identificada presença do vírus Zika. As investigações sobre o tema, entretanto, continuam em andamento para esclarecer questões como a sua atuação no organismo humano, a sua real relação com as alterações cerebrais e período de maior vulnerabilidade para a gestante. Em análise inicial, o risco está associado aos primeiros três meses de gravidez, porém é preciso acompanhamento até o final, pois ainda não se sabe os possíveis riscos.

Apesar da possível relação de causa e efeito pelo aumento vertiginoso nos casos de microcefalia no Brasil, parte da comunidade científica ainda busca dados concretos, como ditos anteriormente, há trabalhos que mostram a presença do vírus em cérebros de bebês com microcefalia, mas é uma doença nova baseada em observações pessoais. A Organização Mundial de Saúde considera essa relação provável. Estão sendo feito estudos no Brasil e no mundo avaliando alterações cerebrais e a presença do vírus.

Algumas informações equivocadas:

  • Segundo o Ministério da Saúde a microcefalia não foi causada pela vacina da rubéola aplicada em gestantes, já que a mesma não é aplicada em milhares grávidas, apenas em crianças de 12 e 15 meses e adolescentes e adultos que não foram vacinados, e os lotes não estavam vencidos.
  • A Fundação Oswaldo Cruz desmentiu a relação causal do vírus Zika e a disfunção neurológica em crianças com menos de 7 anos e idosos, pois alterações neurológicas podem ser vistas após infecção com outros vírus, não exclusivamente ao vírus Zika e em qualquer idade. O vírus Zika entrou para a lista dos vírus que podem ser responsáveis pela Síndrome Paralisante Guillain Barré, doença já conhecida, em que são produzidos anticorpos contra o vírus envolvendo nervos, normalmente das pernas, gerando paralisação das mesmas, normalmente reversível.

Referências:

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